Um processo de realização

 

Apresentamos aqui a vivência de um processo que se desenvolveu durante anos. Seu interesse consiste, essencialmente, em expor com clareza como uma única vivência profunda nem sempre é suficiente por si mesma para despertar. Ela somente é o começo de um processo que, em seu amadurecimento e com a ajuda de um guia realizado, irá desembocando paulatinamente na realização total.

Era o mês de novembro e me encontrava entre as montanhas de uma cordilheira perto da Cidade do México. Tinha 39 anos e tinha buscado o despertar através de inúmeras terapias novas, a iluminação intensiva de Ramana Maharshi, a meditação zen, o vipassana e tantos outros sistemas e vias. Claro que também tinha passado meses na Índia buscando a resposta definitiva. Tudo isto sem resultado aparente. Nos últimos dois anos estava dedicado a aprofundar-me na fascinante senda do xamanismo de Castañeda.( ou havia dedicado os últimos dois anos a aprofundar-me...)

Havia alguns meses que eu me encontrava no México. Nesta ocasião tentava fazer o que Don Juan chamava de “recapitulação”. Consistia em passar quinze dias e noites revivendo toda a minha vida passo a passo. Durante o dia, vagava sozinho por aquelas montanhas. À noite passava fechado numa caixa de madeira na qual mal cabia sentado em meditação.

Não acreditava que poderia passar tantos dias sem dormir. Entrtanto, e para minha surpresa, cada dia minha atenção aumentava. Passados alguns dias, senti vivamente que essa era a minha última oportunidade de chegar ao fundo de mim mesmo. De fato, sentia que nunca poderia fazer mais do que nesses momentos estava fazendo para despertar. Assim me disse, com total compromisso, que seria agora ou nunca. E assim comprometido, me lancei com todo o meu ser a essa tarefa.

Uma noite, talvez a décima, me senti particularmente atento e desperto. Começaram a aparecer ante minha visão interior diversos episódios de minha vida e cada vez com mais nitidez e clareza, à ponto de me encontrar revivendo-os como se estivesse ali mesmo, no passado. Finalmente, apareceu um particularmente doloroso. Em meio à dor desse fato, aconteceu um assombroso desdobramento: por um lado, eu me encontrava totalmente ali, vivendo novamente aquele episódio como se estivesse ocorrendo nesse mesmo instante, com toda riqueza de detalhes e percepções, com toda a realidade; ao mesmo tempo, uma consciência totalmente impessoal testemunhava por trás o evento no presente, presenciando com absoluta imparcialidade o que ali acontecia e presenciando-me a mim mesmo ali vivendo-o, como se eu fosse o personagem de um filme e, simultaneamente, um espectador que o estivesse assistindo.

Nessa estranha situação, e ante a dor do fato que nesse momento acontecia, surgiu subitamente uma pergunta silenciosa: por que a dor? Por que há de haver dor na vida? Por que não pode haver unicamente felicidade?

Ante essa pergunta, uma compreensão relampejou luminosa. Mal sei como transmitir a verdade que daí (ou então) resplandeceu . Como é difícil colocar palavras em um relâmpago! Mas a luz que brotou como resposta compreendia o imenso presente que é a dor, a felicidade prometida, o crescimento que proporciona. Pois sem dor não há despertar, não é possível o brilho da consciência. A dor não é somente o oposto do prazer, senão a única que garante essa felicidade sem limites muito além do mero prazer, pois traz na verdade o despertar do sonho. É muito pobre esta explicação, mas nesse momento se compreendeu o sentido da vida e da morte, e o amor incondicional, imenso e profundo, que há na dor. Essa intensa e instantânea compreensão desembocou em algo ainda mais assombroso. Até então havia estado revivendo episódios de minha vida de uma maneira seqüencial, quer dizer, um após o outro; mas agora começaram a sobrepor-se simultaneamente todos os acontecimentos de minha vida. Contemplei, ou melhor dizendo, testemunhou-se como toda minha vida ocorria simultaneamente à minha frente, toda ela em uníssono num instante, que era eterno. Viu-se então ao “eu” sobreposto a todos os momentos, em todos os acontecimentos. Que dizer: essa presença que testemunhava viu então ao “eu” sem tempo, e viu o que é o “eu”; e o que viu é que “eu” é uma soma de padrões de conduta, um punhado de hábitos, um mecanismo que repete uma e outra vez as mesmas respostas aos mesmos estímulos. “Eu” não é “alguém”; é somente um personagem, um caráter, um modo habitual de responder, que se repete maquinalmente; em resumo: um pensamento.

Extasiado frente a essa nova revelação, ocorreu então a graça infinita: me encontrei subitamente reintegrado no meio do Universo inteiro, rodeado de galáxias em um espaço infinito que estava todo ele “aqui”, em uma bem-aventurança indescritível, eternamente presente em mim, absolutamente imóvel e imutável, puro ser, pura consciência, total e eterna serenidade e contentamento. Tudo era Eu; meu Ser o preenchia por inteiro. E ao mesmo tempo em que me conhecia absolutamente, contemplava admirado minha magnificência e o mistério insondável de minha manifestação inacabável, as maravilhas inesgotáveis, que emanavam e sustentavam meu ser.

Poderia ter ficado assim eternamente, mas algo me tirou de lá. Eram uns golpes em minha caixa. Um facilitador da recapitulação pensou que eu estivesse dormindo e golpeava persistentemente a caixa para despertar-me. Ao sair, somente consegui dizer: “Manolo, você acaba de me tirar do paraíso”. Os dias que se seguiram foram estranhos. A vida parecia acontecer magicamente ao meu redor e a percepção era muito singular. Não obstante, minha mente esforçava-se para achar sentido ao sucedido. Pensava que se algo era a iluminação, era isso. Não podia ser outra coisa. Entretanto, ao mesmo tempo pensava que isso era impossível, que isso não podia acontecer comigo. Quem era eu para merecer tal graça? Ademais, pelo que havia lido ou escutado, acreditava que a iluminação trazia sabedoria, e eu me sentia tão normal como qualquer outra pessoa. Muito menos me sentia mais sábio ou mais realizado.

Não sabia explicar a mim mesmo o que havia ocorrido e tampouco encontrei ajuda entre os organizadores daquela recapitulação. Com o passar dos dias, aquele estado começou paulatinamente a diminuir, o que me causou um poderoso impacto. Se desvanecia o estado de graça, e comecei a pensar que tudo aquilo não havia sido mais que o resultado dos muitos dias sem dormir. À medida que aumentava essa convicção, foi-me invadindo uma profunda tristeza. Não havia conseguido o despertar, mas somente uma alucinação, e pensava que não o conseguiria jamais. ( ou Não conseguira o despertar, somente uma alucinação, e pensava que jamais o alcançaria.)

Passados alguns meses,( nada mais restava daquele acontecimento além de uma lembrança) aquele acontecimento somente era uma recordação. Ou talvez não somente isso? Bem, havia algo mais, algo que estava impresso no meu corpo físico-energético. E era que, desde sempre, até onde alcançava a minha memória, havia sentido um vazio no meu plexo, como a sensação de ter um susto constante. Era como um buraco à altura do estômago por onde sentia escapar grande parte de minha energia. Durante anos havia tentado preenchê-lo buscando a cura à base de terapias e meditações, mas sem êxito. Um dia me dei conta de que já não estava, e então percebi que havia desaparecido precisamente desde o acontecimento da recapitulação. A partir daquele dia o buraco havia desaparecido subitamente e por completo. Ainda assim, não lhe dei maior importância, pois o que me importava era que me sentia tão estúpido como sempre. A tristeza foi apoderando-se de mim a tal ponto que tudo em minha vida começou a desmoronar-se. Totalmente devastado, ao cabo de três anos me sentia tão perdido e incapaz, que não pude fazer outra coisa além de abandonar tudo e retirar-me a um lugar distante ( ou afastado) nas montanhas. Ali passei cinco anos caindo profundamente em mim mesmo. Todas as minhas ilusões iam se derrubando dolorosamente, uma após outra. Particularmente, todas as ilusões que tinha a meu respeito, junto com minha imagem pessoal e minha sensação de ser de algum modo especial. Com o tempo, inclusive esqueci por completo aquele portentoso evento.

Com a chegada do Natal meu tempo de retiro foi concluído. Não havia conseguido nada, mas havia tocado fundo. No que restava de mim já não havia esperança; somente restava a certeza de que eu nunca poderia alcançar a tão ansiada liberação. Não obstante, e ante a alternativa de morrer de uma vez, de um certo modo assumi a inevitável tarefa de enfrentar o resto de minha vida como ela bem quisesse suceder. Assim, me mudei para a cidade.

Um dia, próximo já do verão, conheci alguém que me causou um impacto especial. Era um colombiano que, segundo descobri, dava cursos de meditação e dirigia retiros meditativos. A essa altura de minha vida, eu repelia profundamente a idéia de fazer mais cursos ou terapias. Eu já havia tentado de tudo, colhendo somente um redondo fracasso. Não, isso já não era para mim; eu já havia jogado a toalha. Não obstante, havia algo especial nessa pessoa, algo que me chamou tão poderosamente a atenção, que foi como se se acendesse uma diminuta faísca ao longe, na penumbra do grande e obscuro túnel no qual eu me encontrava. De modo que, mesmo com uma séria dúvida depois (ou... depois de um sério questionamento), senti o impulso de fazer uma última e posterior tentativa. “não tenho nenhuma esperança – disse a mim mesmo -, mas por essa pequena faísca de esperança eu vou tentar pela última vez”.

Minha primeira intenção foi inscrever-me em um dos retiros intensivos, pois já tinha uma grande experiência meditativa e, obviamente, eu não estava ali para brincar. Não obstante, Sesha, assim se chamava aquele indivíduo peculiar, insistiu para que realizasse primeiro os cursos de iniciação à meditação. Explicou-me que essa orientação era importante para que a prática fosse eficaz.

Inicialmente relutante, acabei por aceitar. E como os cursos eram demasiado espaçados e em diversas cidades, optei por inscrever-me no primeiro curso que acontecesse, qualquer que fosse o lugar. Foi assim que assisti durante o outono a um curso inicial numa cidade e logo realizei o seguinte nível em outra. Posso agora dizer que foi uma sorte começar a partir do zero minha prática meditativa. Sesha contribuiu com chaves (ou orientações básicas) assombrosamente simples, mas que fizeram a diferença. Aprendi, por exemplo, que a prática meditativa é sem esforço. Sem esforço! Eu que não havia feito outra coisa em minha vida a não ser esforçar-me com todo o meu ser!

Já no primeiro curso alcancei com facilidade, e sem esforço, uma profundidade meditativa como nunca antes havia experimentado. No segundo curso, vivenciei uma paz e serenidade como nunca havia acreditado ser possível. Assim suprido, me preparei para lançar-me finalmente ao retiro meditativo.

Sesha, em seus retiros intensivos de cinco dias, emprega tanto a prática meditativa interna como a externa, se bem que insiste mais na interna. Surpreendeu-me o fato de que não há observância de silêncio e de que as refeições são fartas e inclusive com vinho. Apesar disso, não há um instante livre. A atenção está continuamente desperta e solicitada dezoito horas por dia, apesar da algazarra dos breves descansos ou das refeições diárias.

Minha prática ia aprofundando-se dia após dia minha atenção aguçada pelos singulares e eficazes métodos que Sesha inventava para manter segundo a segundo nossa presença. Mas na noite do terceiro dia me encontrei num terrível dilema: à medida que me aprofundava nas práticas, tornava-se mais e mais difícil respirar; é que naquela época tinha um problema respiratório pela imensa tristeza que me oprimia e pelos muitos cigarros com que tentava apaziguá-la. O dilema se resumia em que ou escolhia respirar ou escolhia abandonar-me ao profundo relaxamento da prática e asfixiar-me. Mas era tal o meu desespero que, finalmente, optei por colocar-me nas mãos do destino num “seja o que Deus quiser”; de modo que me abandonei por completo à contemplação.

Foi assim que essa noite me encontrei só com minha própria respiração. Eu era somente respiração arquejante. Não havia sons, nem imagens, nem pensamentos, somente asfixia que aumentava. Submergido por completo nessa asfixia que me oprimia, brotou no meu interior um pedido, uma súplica de ajuda: “Por favor, Deus meu; ajude-me.” E então aconteceu um milagre, o impensável, o que nunca acreditei que pudesse chegar a acontecer, o impossível feito realidade.

Subitamente tudo em mim se encheu de luz. Percebi uma falta de gravidade total, enquanto que a asfixia não somente desapareceu por completo, mas desapareceu todo o esforço, toda a respiração, todo o corpo, e me encontrei novamente naquele mesmo glorioso estado que anos antes havia vivenciado. Minha felicidade agora não era somente imensa, mas também absoluta, indescritível. O estado era absolutamente abençoado no encontro pleno daquele que sou; e além disso, na consciência de que aquilo que anos atrás havia vivido no México era Real; assombrosa mas absolutamente Real.

Quando agora contemplo minha vida vejo que, instante após instante, tem sido adequada; que cada evento aconteceu exatamente como devia e exatamente no seu momento oportuno. Também vejo que a intensa vivência da Absoluta Realidade não basta por si mesma para liberar o indivíduo, pois o sistema psicofísico precisa equilibrar-se para acolher e sustentar tamanha imensidão.

Quantas pessoas não devem ter vivido profundas experiências e, por falta de orientação, compreensão e estabilidade pessoal, devem ter pensado que não passavam de alucinações?

Assim, agora vejo que tudo tem sido perfeito e que a desmontagem da ficção do ego é imprescindível. Vejo agora que, efetivamente, a dor não é perversa sina, mas sim o estímulo necessário e o agente imprescindível para que a ilusão se desvaneça.

Agora para mim está claro, que quando o sistema psicofísico estava preparado, apareceu o guia autêntico para preencher o contexto necessário. A mente tem tantas idéias e crenças preconcebidas que qualquer vislumbre do Real passa despercebido ou é jogado fora de imediato ou, pior ainda, nem sequer chega a produzir-se. Por isso é tão valiosa a orientação de um ser realizado e uma explicação plausível que acomode a mente e a predisponha ao encontro.

Também sei que não basta um vislumbre interior, nem dois nem quatro, nem dez, pois o despertar se dá em meio à vida mesma, de braços abertos ao seu destino, contemplando e transcendendo-a. E sei que nenhum “eu” poderá jamais iluminar-se, que jamais um “eu” se ilumina, pois nenhum sonho pode despertar, e sim o sonhador que o sonha.

Assim, sei que nenhum esforço o consegue, que nenhuma técnica é a boa, pois a pessoa desperta em seu momento e a seu modo, nem antes, nem depois, nem de nenhuma outra maneira. Isso ocorre por si mesmo; e, evidentemente, sem esforço. Basta somente abrir-se totalmente à vida, abandonar-se ao que É e ao que Se É. Pois Isso é tudo o que há e Isso é tudo o que na verdade É.

Hoje resta um grande caminho até que o “eu” definitivamente se desprenda; não obstante, todo esse caminho é aqui e é agora. O despertar supremo ocorrerá algum dia, mas já não há quem o procure; toda a busca cessou, já não há mais como perder-se.

Somente resta percorrer o caminho até desaparecer nele.

Como disse don Juan Matús:
“Para mim, os caminhos com coração
e somente os caminhos com coração.
E somente esses percorro.
E a única prova que vale a pena é percorrer toda sua extensão.
E esses percorro,
Olhando,
Olhando sem alento.”

 

 
© Asociación Vedanta Advaita Sesha 2006