| |
A seguir apresentamos o relato de um dos alunos de Sesha, no qual ele descreve sua vivência de um incipiente estado de meditação (Dhyana ou Nirvikalpa samadhi). Este depoimento foi incluído, pois descreve com bastante nitidez a passagem pelos distintos estados de Consciência, isto é, o estado de Observação (Pratiahara ou Savikalpa samadhi associado a objeto) e o estado de Concentração (Dharana ou Savikalpa samadhi associado a som), que termina finalmente em um estado de meditação.
No final, incluímos a resposta concisa de Sesha.
Querido Sesha,
Escrevo-te pois tenho que dizer-te que me sinto abençoado, imensamente agradecido de haver encontrado e de haver sido encontrado.
Graças ao seu encontro e a sua presença, tenho tido vislumbres da imensidão de bem-aventurança (ou plenitude), a paz do ser, a consciência que brilha luminosa por toda parte, o sentido do todo.
O próprio fato do encontro contigo encheu minha vida de um sentido que já perdia as esperanças de alcançar algum dia. Ainda assim, após vislumbres imensos retornava ao dissabor, pela perda do brilho luminoso, da paz e da benção(ou felicidade) como se tivesse tratado de um sonho ou talvez de um espelhismo, quem sabe, devido a que era tal meu assombro que não conseguia conceber sequer, que uma tal graça pudesse recair sobre este ser tão imperfeito.
A partir deste último retiro meditativo, não obstante, sinto algo novo que nunca havia sentido antes. Sinto que algo desse brilho, dessa paz, desse sentido de todo, permanece comigo e não se afasta mais.
Vi, me encontrei, encontrei o que É e o que É me encontrou: o que É, o que sabe que é e a graça imensa da plenitude.
Poderia dizer que a busca terminou, assim como a angústia de sentir-me perdido. O que É que Sou e sabe que sou (ou que é ) veio para ficar. E se bem que é certo que “eu” segue aqui, já não pode ser tudo o que era antes, o protagonista da história, porque surgiu O-Que-É.
A minha vida acontece e meus olhos assombrados a contemplam em seu misterioso fluir.
Na verdade não há dois, não há diferença.
Obrigado, profundamente obrigado, reverentemente obrigado.
Obs.: em anexo um breve relato que descreve como me ocorre o processo meditativo. Talvez seja útil para algo.
Sento-me e busco a postura. Já a conheço de outras vezes, de tantas outras vezes que a tentei com afinco e dor. Agora já sei que a coluna se coloca ereta, a cabeça sobre os ombros, nem para frente nem para trás, para que o corpo se sustente por si só e sem esforço.
Sem esforço, está aí a chave de tudo: o corpo se sustenta por si mesmo, a respiração acontece por si mesma. Sem esforço, profundamente relaxado, não há tensão nem dor, nem mesmo há corpo.
A seguir é preciso transpor a fronteira do mundo exterior até dentro de mim mesmo. Depois de tantas vezes, agora já me é relativamente fácil. Tão fácil como adormecer. Ao dormir, os sentidos se amortecem na distância, o corpo adquire uma sensação formigante, vibrante, como uma reverberação de energia quente, e meus membros e meus contornos se desintegram, perdendo sua solidez concreta. Ouço, mas a partir de uma distância amortecida. A vista se relaxa, meus glóbulos oculares submergem sob as pálpebras, como quando estou a ponto de submergir-me no sono, e rapidamente deixo de ver com meus olhos para perceber, simplesmente, uma negridão(negritude) que aparece à minha frente. É como se minha vista desaparecesse de meus olhos relaxados, rendidos, para ser substituída por um amplo espaço negro que surge à sua frente ... ou o que seria a minha frente se ainda tivesse um corpo. A chave é o relaxamento, o abandono atento, livre de desejo e, uma vez mais, sem esforço. Isto chega por si mesmo, ocorre por si só quando cessa todo esforço. Minha atenção, não obstante, não se abandona ao sono, mas segue presente na percepção desse espaço negro, vibrante, quase brilhante em sua espaçosa negridão.
Aqui, no meio desta negridão que surge à minha frente, o universo se divide. Aqui, aqui mesmo, estou eu: me sinto, o sinto, me sei: estou aqui. Ali, distante, está isto, o demais, o que não sou. Novamente me ajuda o relaxamento, o abandono, o desaparecer como em um sono mais e mais profundo sem que a atenção deixe de perceber - por si mesma e sem esforço – a negridão plena, espaçosa e brilhante que há à minha frente. A atenção permanece naturalmente imóvel, como uma serpente erguida ante o espaço negro que há em frente. E aqui estou eu e ali isto, o que não sou, percebido à distância; e o que ali há são tentativas de pensamento, tentativas de imagens e recordações, tentativas de agitação que não me arrastam, nem me comovem, nem me distraem de minha presença imóvel, atenta somente a perceber (ou estar atento). O corpo que já não tenho segue ereto por si mesmo, minha atenção igualmente ereta frente o espaço negro como se ergue atenta a serpente ante sua presa. E assim o aquilo que eu não sou aumenta (ou se distancia mais e mais) mais e mais sua distância e já não há nada além do que vislumbre de movimento à distância, enquanto adquire mais e mais presença o si mesmo em mim, aqui, que se sabe.
Cada vez mais relaxado, sempre sem esforço nenhum, meu ser se sustenta por si só ante a negridão distante, e a sensação de presença se faz mais intensa. Então, e sem esforço, a atenção deixa de se manter à distancia para submergir-se na presença que sou, que paulatinamente me envolve; e sem esforço ocorre a transição para a atenção totalmente possuída de mim, plena de mim mesmo. E então aqui estou sem limites. Surge uma nova negridão, agora cheia de vida, um espaço vivo e ilimitado que sou, ao qual envolvo ao mesmo tempo que me envolve. E surge a felicidade de saber-me intimamente, de saber-me eu que ao mesmo tempo é ninguém e que está em nenhuma parte ao mesmo tempo que está em todas: somente eu, pleno eu, um dar-se conta assombrado, sensações formigantes, pura energia em equilíbrio que se percebe ( ou se sabe). E embora às vezes reconheça algum som na sala, um latido à distância, algum sutil movimento, ou tensão, ou dor no corpo que antes tinha, alguma agitação na mente, todos eles estão aí fora e eu permaneço dentro, intimamente dentro de mim mesmo. Agora é fácil residir aqui; muito fácil, porque não há nenhum esforço, nem físico, nem psíquico, e esse alguém que quer e que deseja foi se distanciando. Uma mente me acompanha, entretanto registrando o que aparece, o que sucede. Mas essa mente não sou eu, não está em mim, é mais como um instrumento acessório que interpreta e registra o que a consciência que sou testemunha.
Agora a vontade cessou. Já não há ninguém que queira. Me dou conta de que o ser sabe e encontra a via. Assim basta somente colocar-se em suas mãos. E me deixo levar por isto, pelo É-Que-Sou, pelo Sou-Que-É. Compreendo tudo, porque essa mente acessória, ali à distância, continua a me acompanhar. E eu me deixo levar e isto me leva. É assim que minha atenção se deposita então sem esforço na diferença, no que ressalta em meio à harmonia; mas já não é tanto a minha atenção, como a atenção ela mesma por si mesma; eu somente me dou conta. Assim percebo que a atenção se deposita em algo que se destaca na totalidade, em algo que aparece como uma diferença. E me dou conta de que se trata de uma tensão no que antes eram meus ombros. A atenção repousa ali, simplesmente, sem esforço, e aos poucos os ombros, por si mesmos e sem esforço, se relaxam, e o que antes era minha cabeça se endireita. Agora a postura é mais perfeita, mais relaxada, mais ela somente e sem esforço, e ao mesmo tempo em que o ser-corpo se alinha, ocorre um alinhamento na consciência como se ambos, ser e consciência, fossem uma mesma e única coisa. A seguir a atenção percebe outra diferença. Nesta ocasião se trata da coluna. A atenção se deposita ali e a coluna se endireita ela mesma e sem esforço, ao mesmo tempo em que a consciência se alinha mais ainda.
Novamente outra tensão, agora na respiração. A respiração é difícil, esforçada, não flui por si mesma. Novamente a atenção repousa ali, simplesmente, observando, fundindo-se com o que a respiração é. Então, a atenção é respiração, e a respiração é atenção, e eu sou atenção-respiração. E subitamente, então, a respiração sucede por si mesma e sem esforço, livre, plena, e eu me sinto inteiro, em cima e abaixo alinhado, dentro e fora sem fronteiras. Isto me envolve( ou preenche) plenamente, totalmente. O ser é por si mesmo, o espaço se enche de luz, de vida, de puro ser por si mesmo, de consciência limpa que percebe. Uma imensa paz e quietude e felicidade e plenitude me envolvem, e me preenche um imenso agradecimento por sentir ter chegado ao meu lar, no encontro íntimo de mim mesmo, do É-Que-Sou e do Sou-Que-É e sabe que é.
Logo, ao abrir os olhos e caminhar no mundo, estou ali: novamente o mundo, novamente eu. Mas há algo que permanece. E é que Isto continua acontecendo por si mesmo. A vida segue, o corpo respira e se move, as sensações aparecem, o ser responde e a consciência que sou conhece, nada mais, simplesmente e sem esforço. Quem sou repousa no agora, porque agora é onde flui o rio da vida, que vem a mim ante o meu olhar assombrado e se retira quando chegam os pensamentos. Mas eu permaneço neste contínuo agora que não cessa, aqui, inamovível. Seja o que for que ocorra, estou; quando quer que seja, estou agora; qualquer que seja o lugar, estou aqui; sempre inextinguível, sempre inamovível. Eternamente agora, infinitamente aqui, sou eu.
E se a atenção vacila e eu me encontro subitamente no carrossel do tempo e do espaço, ainda sei que estou agora e aqui, e ainda sei que aqui e agora me encontro.
Resposta de Sesha:
Meu querido ...
Não te esqueças nunca que quem testemunha a liberdade são os pequenos atos da vida, os mais simples, os mais insólitos.
Um abraço para ti e ...
Sesha.
|